terça-feira, janeiro 25

De nada adiantou ter lugar na segunda fileira do ônibus. A Lei de Murphy entrou em ação e, contra todas as probabilidades, acomodou as duas únicas crianças do ônibus bem na minha frente. E o pior, pertenciam à espécie mais comum de criança: a que tem bicho-carpinteiro no corpo. Podem me acusar de radicalismo, mas sou da opinião de que criança chata (o que é quase um pleonasmo) devia seguir viagem no bagageiro. Para escapar da cacofonia produzida pelas insuportáveis criaturas, fiz o que qualquer um faria: botei o fone no ouvido e só o tirei no término da viagem. Bem mais difícil foi ignorar o rosto de nariz ranhento que teimava em surgir sobre o encosto da poltrona. O jeito era fechar os olhos ou observar, com falso interesse, os detalhes do teto do ônibus.
Logo no início do trajeto o motorista chegou a ameaçar uma ultrapassagem ousada, mas desistiu em seguida. Neste exato instante, a Isobel cantava no fone: But still I hesitate because of fear. Achei uma coincidência engraçada. Se fosse ensaiado não teria a mesma sincronia. Já na serra de Petrópolis, ao encarar uma curva perigosa, o motorista tentou ultrapassar um caminhão gigantesco e quase meteu o ônibus no meio do monstrengo. Não satisfeito, incorporou o Satoru Nakajima e tentou dar um X num caminhãozinho invocado que o deixara para trás. Tomou uma fechada desmoralizante e, finalmente, sossegou o facho. Como o fone estava ocupado por Ride, Placebo, HOL e outros suspeitos usuais, o Morrissey foi impedido de fazer o comentário óbvio: And if a ten ton truck kills the both of us. Acho que me faltou presença de espírito.